Faço parte da geração 1000. A geração que trabalha a 1000 à hora e recebe (menos) de 1000€ por mês. Sou daquelas que se esmifra, que vem trabalhar cedo, e que sai tarde, não porque passa o dia no mail e no blog (é a frequência com que escrevo), mas porque trabalha no duro e se esforça, veste a camisola, atura tudo e todos e mantém sempre a postura de “sim, dá-me mais trabalho, que eu quero aprender e é assim que eu vou conseguir”.
Ando nisto vai fazer três anos. Estou no terceiro emprego, e olhem que no que respeita a relações humanas, andam todos ela por ela. E dói estar sempre à prova. E revolta-me saber que toda a minha geração anda no mesmo, e que os empregadores esticam ao limite a corda, utilizam todos os artifícios que a lei permite para conseguir apresentar resultados finais positivos. Chama-se a isto mão-de-obra barata. Parece que afinal esse modelo sempre se aplica cá.
E apanhar os velhos nas paragens do autocarro ou no balcão da CGD com o discurso da “esta juventude está cada vez pior”. Ainda há poucos anos nos apelidavam de juventude rasca. Infelizmente, é “à pala” desta juventude rasca que este país de bosta se ergue. E é com a maior hipocrisia que anunciam que Portugal exporta mais tecnologia do que calçado actualmente. O avanço que fizemos foi deixar de explorar mão-de-obra infantil a trabalhar o couro para sapatos. Agora sim, é legal explorar mão-de-obra qualificada, maior de idade, em frente do monitor. Muito melhor, a UE não nos chateia, temos a cara limpa.
Somos obrigados a adiar a vida, não tomamos decisões que devíamos porque não temos condições para o fazer. Sim, porque não temos como o fazer. Nem todos têm sorte. E os velhos do Restelo que chamam de egoístas “com a tua idade já tinha 3 filhos”. Olha que merda, trabalho 11h por dia, o meu salário chega para alimentar a minha gata, que raio de educação daria eu, mãe ausente, nem dinheiro para fraldas tenho… Esquecem-se que no tempo deles as coisas eram diferentes, e eram sim senhor. Nem para ir à neve tenho dinheiro, quanto mais pagar escola a uma criança.
Mas ok, eu sou mulher, por isso à 20 anos atrás nem devia sequer imaginar ter uma carreira profissional. Devia mas é ficar em casa, cozinhar para o marido, coser meias, colocar o meu sorriso “anúncio de detergente” e receber o meu esposo, de pescoço sujo de baton, com mesa posta e sobremesa preparada…
Mais os meninos das Jotas, com os seus cartazes “Portugal precisa de bebés”. Fá-los tu.
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4 comentários:
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É irónico ler este texto. Logo hoje que a contabilista da empresa onde trabalho me deu a notícia de que eu, para além de apresentar a porcaria do IRS e de pagar as prestações da Segurança Social, tenho de descontar mais 21% para uma merda chamada IVA. Logo eu que também pertenço à geração 1000 e, pior do que isso, à geração Recibo Verde. Logo eu que, por incrível que possa parecer, juntava mais dinheiro no tempo da Faculdade do que agora. Naquela altura, sempre fazia uma viagem por ano: inter-rail, ficar em casa dos amigos que estavam em ERASMUS… Qualquer coisa! E agora, passo o mês a contar os tostões para a prestação da casa, os almoços e o raio que me parta. Antigamente, tinha a filosofia de que seria sempre feliz se o dinheiro desse para cinema e livros. Agora já não sei. Ou melhor, HOJE já não sei. Talvez por estar deprimida e com vontade de pôr bombas nas repartições de finanças. Isso ou começar a fugir aos impostos. Mas não. Sou demasiado tenrinha. Está-se mesmo a ver que vou continuar a pagá-los, cêntimo a cêntimo.
Obrigada pelo texto e sorry pelo desabafo.
Pois, ontem foi um acontecimento do género que me tirou da inércia e me lançou ao "papel" para escrever no blog.
Mas eu sou uma optimista, as coisas mudam e Mundo gira!
Obrigada! Este texto lavou-me a alma. Pelo menos nao estou sozinha!
Carla Bessa
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