segunda-feira, dezembro 04, 2006

Fila ou Bicha?

Sempre me irritou aquela mania de não usar o nome das coisas como deve ser. Começou com a “fila”, em vez de "bicha". Na minha escolinha não havia esse tipo de preconceitos, e um aglomerado alinhado de pessoas sempre foi “vai para o fim da bicha seu malandro” e não um polido “a fila começa lá atrás”. Outro eufemismo que sempre evitei (e a futura sra Calado concorda comigo ;) ) foi o refinadíssimo “alfinete de peito”. Sempre ouvi o termo “broche”, pela minha avó e pela minha mãe, sem qualquer preocupação purista, porque o mal está na cabeça das pessoas.

Pois mas este fim-de-semana, o meu mundo ruíu…

Estive num aniversário de um amigo, daqueles em que se conhecem duas pessoas e em que inevitavelmente se tem de fazer conversa com alguém. A minha táctica é sempre a mesma. Escolho a pessoa com o ar mais boa onda, de preferência que também esteja assim para o abandonado e tento estabelecer uma linha de relacionamento, começando com lugares comuns que dure pelo menos uma horita, não vale a pena massacrar sempre a mesma pessoa. Ora neste dia, escolhi uma ourives (eu gosto de jóias, ela é produtora, faz todo o sentido).

MKB: “Então tu é que és a Clotilde, a amiga do Zé Pimpolho que tem uma loja em Alfama”

Clotilde: “sim, sim. Tens de lá ir, há coisas para todos os gostos”

MKB: “pois, o Zé Pimpolho disse-me que fazes uns broches…”

Lição a reter: se queres comprar o EuroMilhões, põe-te na fila.

8 comentários:

Anónimo disse...

Na minha escolinha, a professora que mais gostavamos a de expressão plástica, era tratada por bicha..e o aglomerado de pessoas em linha recta, também se designava por bicha, aliás ainda digo assim, não devia era?
Quanto ao alfinete de peito por acaso sempre o conheci por pregadeira, com esse não tenho problemas!

Anónimo disse...

ahahaah lindo!!!

MKB disse...

A rapariga franziu o sobrolho, eu, serena como se quer na situação continuei a frase com um "com isto quero dizer um alfinete de peito...".

Por favor, não me compares com o George. Tenho medo de ter visto tantas vezes o Seinfeld que tenha começado a assimilar características desta personagem...

Pequena nota: eu estava vagamente ressacada, com o cérebro desligado ocupada e concentrada em não derrubar nenhum copo ou sujar a roupa. Apesar de ser rapariga, não consigo executar todas estas tarefas na perfeição!

Anónimo disse...

Hilariante, como só tu sabes ser... Eu que sou do norte digo fila desde sempre e coro quando digo broche e quero dizer alfinete de peito... Obrigada por me fazeres sentir melhor, nenhuma das calinadas que mandei este fds se comparam com esta. Sou uma mulher feliz!!!

MKB disse...

Hei!!

Biipolar, a minha prenda de anos?

Hyaat disse...

Esta coisa de chamar os bois pelos nomes tem que se lhe diga... Para além dos conceitos que referiste, há um que também ensombra a sociedade portuguesa. A velha questão do preto, "de cor", etc. Genericamente, quando se pretende identificar uma pessoa que está num grupo, o mais fácil é referir o óbvio, como "aquela rapariga que está com um chapéu vermelho", "o rapaz mais baixinho", "a loira", etc. Quando o óbvio salta à vista, e queremos referenciar um preto, ou "de cor", existem duas opções. Ou bem que se arrisca e se atira com qualquer coisa como "o preto" ou "o de cor", sendo certo que qualquer dos dois levanta susceptibilidades, ou então vai-se para o rídiculo de tentar identificar por outras características menos óbvias, que tornam a conversa um tanto ou quanto ridícula, que acaba certamente com a outra pessoa a dizer "mas porque é que não disseste logo que era o preto/de cor?". Acho que este é um dilema que nos vai acompanhar para a campa... A não ser que o nosso amigo Diogo Infante se lembre de tratar este tema naquele programa "Bom Português", ou lá como se chama, que assim ficavamos todos a saber..

isabel disse...

Qual é "a cor" de um preto? Não é o preto, por definição, a ausência de cor?

MKB disse...

Ainda ontem discutimos isso, a cena do "de cor"... Alguém escreveu sobre isso (julgo que terá sido o Malcolm X, mas tenho medo de estar a dizer algum disparate): "When you go in the sun – you get red. When you are cold – you turn blue. When you die – you turn purple. And you have the nerve to call me coloured!".