quarta-feira, abril 30, 2008


Hoje acordei já a cantar. Abri as janelas que dão para o meu jardim e percebi porquê: a Primavera chegou com grande esplendor a Lisboa. E os primeiros a receber a notícia são os pardalecos das traseiras da Av. de Roma, que cantam numa fúria ensurdecedora ao primeiro raio de sol.


Acho que só quem viveu na penumbra de um outro país qualquer sabe realmente dar valor a estes dias radiosos. Lembro-me que nos meus tempos de Holanda me comportei como verdadeira holandesa: a minha vida até Junho era um desastre, nada fazia sentido e raios, até andar de bicicleta ao frio e às escuras era um suplício. Depois, zás! Veio o sol, e quando dei por mim estava no lago da terrinha a chapinhar, com grandes banhos e valentes escaldões, churrasco, batatas fritas e cerveja, olé!


Primaveril, de alguém que escrevia bem melhor que eu:


Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.


Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.


Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.


Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.


“De tarde”, Cesário Verde

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